Artigo 1
Inovação em Design:
Estética e Usabilidade
A busca pela beleza e perfeição - através das diversas disciplinas humanas, como a arte, tecnologia e medicina - é um dos impulsionadores históricos da evolução das civilizações. A ciência, em especial, elaborou ao longo dos séculos diversas teorias para explicar o que é a beleza, quais são suas características essenciais e seus efeitos sobre o homem.
Um desenvolvimento recente nesta área (2001) foi a pesquisa do cirurgião plástico Stephen Marquardt que desenvolveu a Máscara da Beleza Ideal, baseada nos conceitos de simetria, harmonia e na proporção áurea de 1:1,618 de Leonardo Da Vinci. Esta máscara representa as proporções que os elementos da face humana devem ter para causar uma sensação de beleza e atração.
Em função desta descoberta, diversos campos do conhecimento humano foram influenciados - desde os procedimentos de cirurgia plástica até a área de computação gráfica – e auxiliados na busca da perfeição e realismo de suas atividades.
O conceito de beleza, quando aplicado aos negócios, se utiliza da psicologia do consumidor ou usuário para validar seus efeitos e resultados. As estratégias de produto e comunicação se utilizam de pessoas, símbolos, signos, formas, cores, etc, combinados de forma a criar o belo e despertar no inconsciente do consumidor, de acordo com o objetivo, sensações como felicidade, paz, relaxamento, satisfação, emoção, euforia, etc, associadas e indissociáveis ao desejo de ter.
Quanto mais subimos na hierarquia de necessidades dos consumidores (Teoria da Pirâmide de Maslow), mais relevante é o papel da beleza na decisão de compra. Por esse motivo, o Design de Produtos e atividades de P&D relacionadas devem cada vez mais atentar para a atratividade estética final de seus projetos.
Apesar de o Design ter como objetivo principal o desenvolvimento de objetos que solucionem problemas ou simplifiquem a vida do ser humano - o que não necessariamente implica em beleza, a combinação ideal para as empresas obterem diferenciais em seus produtos através do design será da usabilidade com o apelo estético.
Em outras palavras, não basta ser funcional e atender às necessidades básicas do consumidor. Se o produto não for estética ou sensorialmente desejável, não “sai da gôndola”. E os profissionais de marketing, conhecendo muito bem esta regra de ouro, investem boa parte de seus esforços no desenvolvimento de formatos, embalagens e rótulos que entreguem ao consumidor a usabilidade e a beleza que muitas vezes o produto não consegue ou pode ter.
Quando pensamos em produtos de sucesso que se tornaram febre mundial de consumo (independente da qualidade de sua embalagem), encontramos três elementos em comum entre eles:
- O atendimento, com competência, das exigências básicas de seu propósito de existir (exemplo de um telefone celular, que realiza ligações com qualidade, possui relativa portabilidade, autonomia de bateria) e do grau de necessidades e desejos de seus consumidores (possua sistema operacional, aplicativos, câmera e tocador de MP3 integrado, etc);
- A adequação às características competitivas (macro e micro) de seu mercado de atuação através de uma estratégia comercial e de marketing adequada (considerando a melhor combinação de público alvo, preço, canais de comunicação, logística de distribuição, estrutura de customer care) e, por fim;
- a diferenciação através do design, equilibrando o apelo estético, sensorial e inventivo com a usabilidade do produto.
O elemento design aparece em destaque, pois, além de representar os desejos no topo da pirâmide de necessidades, é o principal elemento que faz com que o consumidor realize grandes concessões de seus critérios de escolha nos demais elementos do produto, principalmente se permitindo gastar um valor significativamente mais alto para adquiri-lo. Ou seja, design é sim um ativo intangível de alto valor. E os repetidos cases de mercado nos mostram este comportamento.
Um bom exemplo recente é o caso do iPhone, telefone celular da Apple, ícone estético e de usabilidade do design. Mesmo não tendo sido lançado no país, muitos consumidores brasileiros já ostentam seus iPhones desbloqueados e funcionais (apesar das restrições de fábrica e operadora), adquiridos à um custo e esforço muito superior aos aparelhos tradicionais vendidos nas lojas.
Principais Variáveis do Design
Para obtermos uma compreensão mais profunda do conceito de design que entendemos como diferencial, detalhamos abaixo principais características que um produto deverá contemplar para obter sucesso no mercado:
I) Usabilidade
O conceito de usabilidade pode ser entendido como o grau dificuldade que um usuário terá para aprender e dominar a utilização completa do produto. Quanto mais rapidamente e facilmente um consumidor conseguir aprender a utilizar o produto, maior será a usabilidade do mesmo.
A usabilidade pode ser subdividida em 3 categorias:
- Integração / Sinergia: Esta característica está cada vez mais em destaque, principalmente em setores de tecnologia, em função das tendências de convergência de funcionalidades em um mesmo produto. Para que um produto tenha uma identidade funcional integrada (e não diversas funcionalidades em uma mesma plataforma) é necessário que o design integre cada funcionalidade como em um quebra-cabeça, respeitando as características predominantes de cada uma sem interferir e comprometer as demais.
- Simplicidade: Apesar da complexidade crescente dos produtos proporcionada pela integração de novas tecnologias, a simplicidade ainda se mostra o diferencial principal dos produtos de sucesso. Não a simplicidade por si só, no sentido de ausência, mas a complexidade apresentada de forma simples e completa.
- Intuitividade: Apesar do Código de Defesa do Consumidor exigir que os produtos comercializados no Brasil possuam manual de instrução em língua portuguesa (e das empresas cumprirem esta obrigação integralmente), não é hábito de o consumidor ler o manual completo antes de utilizar o produto. Na maioria dos casos, o consumidor nem sequer se dá ao trabalho de abrir o manual. Por esse motivo, o aprendizado da utilização dos produtos deve ser cada vez mais intuitivo e auto-explicativo, o que aumenta a satisfação dos consumidores e facilita sua adoção de forma massificada.
II) Estética
A estética, como sinônimo de beleza e perfeição, é um dos elementos do design mais relevante como diferencial competitivo. Ainda se busca a fórmula da beleza e perfeição para os objetos e produtos – assim como a fórmula para a beleza facial do Dr. Marquardt: o carro perfeito, a casa perfeita, o celular perfeito, a televisão perfeita...
A busca se mostra infinita e volátil em cada novo contexto. Porém as empresas devem buscar, de forma ampla e genérica, desenvolver produtos considerando:
- Formato: relacionado ao aspecto do objeto, seu desenho, traçado. Cada tipo de formato é adequado a uma finalidade específica e passa uma mensagem simbólica através de suas linhas, curvas, ângulos, formas geométricas, etc.
- Tamanho: em um contexto competitivo onde a portabilidade, a praticidade e o minimalismo tendem a se sobressair no desenvolvimento dos produtos, o tamanho e a proporção são elementos centrais.
- Textura: buscando o apelo sensorial do tato, os produtos deverão se utilizar de novos materiais e matérias primas se quiserem se diferenciar.
- Cor: combinação de cores e tons associada aos efeitos iluminação que visa estimular a sensibilidade visual dos consumidores.
- Equilíbrio: por fim, é o conceito que orienta a combinação de cada um dos elementos para formar o produto ideal.
III) Personalização
Apesar de não ser uma característica intrínseca do design, a personalização dos produtos é uma das estratégias de sucesso adotadas por diversas empresas. Agregar seu toque pessoal ao produto através de acessórios, opcionais, muitas vezes é o que define a satisfação do cliente em termos do design do produto.
Além deste aspecto, a personalização é um fenômeno que transcende o individual e atinge o nível dos segmentos e grupos de afinidade de consumidores, através licenciamento de marcas de prestígio e status. Adquirir um notebook Ferrari ou um celular Prada são formas do consumidor expressar sua identidade individual-coletiva.
Considerando estas 3 variáveis do design - usabilidade, estética e personalização, e outras como sensorialismo, interatividade e sustentabilidade, empresas pioneiras como Apple, Gilette, Ford, Nike e Louis Vuitton desenvolveram estratégias de produto e de marketing enfatizando seus diferenciais em termos de design. Como resultado, em muitos casos, obtiveram a liderança de mercado e um posicionamento único.
A estratégia da Apple, desde os primeiros iMacs arredondados com cores vibrantes - em contraste com as torres quadradas e beges dos PCs – até os últimos lançamentos como o MacBook Air – tem como elemento central a diferenciação através do design e da usabilidade. Esta diferenciação, associada ao ritmo trimestral de lançamento de novos produtos-conceito, com novos designs, fez da Apple uma referência em inovação de produtos e em inovação de design.
A Apple tem a rara capacidade no mercado atual de combinar e integrar elementos técnicos e operacionais de forma funcional no desenvolvimento de seus produtos, tornando sutil a linha divisória entre hardware e software, homem e máquina (se é que o conceito “máquina” ainda cabe quando falamos de produtos design-oriented). As telas touchscreen do iPhone, a scroll wheel do iPod e a infinidade de acessórios e opcionais existentes demonstram esta capacidade criativa de desenvolver soluções simples e diferenciais para seus produtos.
Design na Gestão
Uma vez delineado o panorama de relevância e importância do design na dinâmica dos negócios, elencamos alguns dos desafios que as empresas que estão comprometidas com o sucesso de seus produtos deverão enfrentar:
- Combinação da complexidade tecnológica com a usabilidade e simplicidade de utilização e operação dos produtos;
- Adoção de novas práticas e tecnologias de inovação em design que possibilitem agregar características diferenciais aos produtos;
- A competitividade só é possível com inovação e recorrência. As empresas necessitam inovar continuamente (semestrais, anuais, bianuais) seus produtos, com novos modelos/funcionalidades para se manterem a par e/ou ditar o ritmo do mercado de atuação.
- Estruturação de práticas de P&D, marketing e comunicação orientadas ao design do produto. Tal estruturação representa uma mudança significativa na cultura e na forma de fazer negócios da empresa.
- Monitoramento contínuo das tendências e benchmarks em termos de design em seu setor de atuação e nos demais setores como forma de identificar oportunidades e mitigar riscos aos seus produtos;
- Absorver as novas tendências em design sustentável, principalmente para embalagens e
- Tratar o design como ativo de valor corporativo, incorporando-o ao sistema de geração de valor, como ativo intangível
O consumidor, como ser humano, tem a busca pela beleza e pela funcionalidade (comodidade + simplicidade) como um de seus objetivos (in)conscientes e, muitas vezes, não hesitará em gastar mais para adquiri-la. Às empresas basta conceberem seus produtos com usabilidade e atratitivade estética para satisfazerem os desejos dos consumidores e assim se garantirem como players competitivos no mercado.

